


N5.04 – Uma liderança que vigia o coração
por Saulinho Farias
Somos canais de Deus na vida de outras pessoas. Os canais são ambientes de passagem. No Nordeste do Brasil estão construindo canais a partir do grandioso rio São Francisco para fazer a irrigação de várias cidades atingidas pela seca. Esses canais são a esperança de muitas famílias que vivem nesses lugares, não necessariamente por causa deles, mas pelo conteúdo que flui por eles: a água. De que adianta canais sem água? Para nada serve.
Sim! Somos canais. Nosso objetivo é deixar fluir a graça e a vida de Deus a partir de nós para que haja vida também nos outros. Nosso objetivo é deixar passar, não reter.
Imagine comigo agora que uma determinada cidade, que recebe água do São Francisco por um determinado canal, acorda um dia sem água, isso porque, o canal decidiu por vontade própria reter essa maravilhosa água para ele. Tal canal então cresce, incha, toma proporções destruidoras, como uma grande barragem, com um grande dano ambiental. Tanto tesouro acumulado. Tanto potencial desperdiçado.
Não fomos chamados para sermos barragens. Deus quer que possibilitemos que outros se desenvolvam. Deus quer que estejamos felizes ao ver que o tesouro que não seguramos está sendo a vida para muitos. É como se estivéssemos perdendo o tempo todo, para que outros ganhem. Paulo admite: “Porque nós também somos fracos nele, mas viveremos com ele, para vós outros pelo poder de Deus... Porque nos regozijamos quando nós estamos fracos e vós, fortes; e isto é o que pedimos: o vosso aperfeiçoamento”(2 Co 13.4b, 9).
UM MINISTÉRIO DE SUCESSO
Ultimamente venho refletindo no ministério de João Batista. Segundo Jesus, até aquele momento: “Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele”. Sabe o que é um ministério de sucesso na perspectiva de Jesus? Um ministério que aprende com João Batista. O que tinha João Batista?
Em João 1.19, perguntaram a João: “Quem és tu? Ele confessou e não negou: Eu não sou o Cristo”. Muitos tinham essa expectativa. O ministério era grande, forte, confrontador. Estava abalando as estruturas dos religiosos e governantes. Mas ele diz claramente: “Não sou o Cristo”, “Não sou Elias”, “Não sou o profeta”.
Parece até brincadeira, mas penso que nós deveríamos dizer ao povo: “Ei gente! Eu não sou o Cristo, é dele que venho falando, mas Ele não sou eu”. Não é tão difícil confundirmos as coisas. É provável que em algum momento queiramos (inconscientemente) assumir um lugar no coração de outros que não pertence a nós. E tudo isso é muito sutil. Os desvios e abusos tomam proporções inimagináveis. Não é por acaso que temos visto por aí um reino de homens sobre homens, verdadeiros impérios montados e o pior, em nome de Jesus.
O que João disse mesmo? “Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías” (Ler João 1.19-23).
Apenas uma voz? Sim! Uma voz que lançava o fundamento do arrependimento sobre Israel, preparando o caminho, aplanando para que Jesus passasse. Que coisa linda! Eu visualizo João Batista como alguém que estende um maravilhoso tapete vermelho para que o Astro da Eternidade passasse. É um ministério que exalta Jesus, que aponta para Jesus.
João não queria que as pessoas focassem nele. Assim que reconheceu o Filho de Deus, ele afirmou: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29) e mais uma vez, vendo Jesus passar, se volta para seus discípulos e diz: “Eis o Cordeiro de Deus! - Os dois discípulos ouvindo-o dizer isto, seguiram Jesus” (João 1.36-37).
Temos essa atitude? Será que como lideres e discipuladores estamos preparando o caminho do Senhor no coração dos homens? Ou estamos preparando o nosso próprio caminho? Nos alegramos quando as pessoas descobrem Cristo? Apontamos Cristo e deixamos as pessoas aos cuidados dele? Mesmo que em algum momento tais pessoas não caminhem mais conosco? Ou nos sentimos enciumados com Jesus?
LIDERANÇA E AUTORIDADE
O que acontece com você quando Deus vai levantando outras pessoas dentro de sua realidade local? Quando você percebe que existem outros mais diligentes, mais capazes, mas dotados espiritualmente que você?
Nas empresas e outras organizações no mundo, um rígido sistema hierárquico preserva o status de quem está no topo da pirâmide. A hierarquia tem o poder de controlar o sistema. É o esqueleto que o mantém de pé. Não interessa se existem pessoas mais capazes abaixo de outras. Não interessa se a pessoa que está no poder não dá exemplo ou não tem caráter. Cargos hierárquicos são estáticos, politizados, e há muita burocracia. Uns estão acima de outros e isso funciona muito bem no exercito, governo, partidos, empresas, enfim, no sistema do mundo.
No reino de Deus as coisas são (devem ser) diferentes. São sistemas diferentes. “Então Jesus chamando-os disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrario, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” Mt 20.25-28
Autoridade no reino de Deus tem relação direta com a vida e a prática da Palavra. É autoridade que vem pelo quanto se é servo, e pelo quanto se ama. Não é estática, fixa. É funcional, flexível e orgânica. As pessoas não estão em evidencia, Jesus está em evidência. Quanto mais de Jesus alguém vive, mais essa pessoa tem autoridade. E isso não tem nada a ver com “cargos”, mais uma vez: tem a ver com vida. Existem áreas em nossa vida que nós expressamos a vida de Cristo com mais evidência. Nessas áreas, somos autoridade para edificarmos outros. Se existem áreas em que ainda não temos desfrutado da experiência transformadora de Cristo, precisamos de pessoas com tais experiências que nos edifiquem. É assim que flui a edificação no corpo.
Sabendo disso, consigo visualizar a Igreja, não como uma pirâmide hierárquica, mas como uma rede de relacionamentos onde cada um faz a sua parte para envolver e empoderar a outros, para que outros cresçam, amadureçam e frutifiquem para a glória do Pai, explicitando um discipulado maduro e autêntico. Um organismo vivo, onde todos se edificam mutuamente, onde os mais velhos são tão simples que se mostram sensíveis ao falar de Deus através das bocas dos pequeninos. Uma grande família, onde o Pai é exaltado e exalta a Cristo, o irmão mais velho. Uma família de homens e mulheres experimentados, que possuem um coração paternal e maternal com o objetivo de formar outros pais, ou seja, formar companheiros.
O nosso coração é enganoso. Podemos ser tentados a fazermos discípulos para nós mesmos, ambicionando a projeção humana e o destaque por sermos “frutíferos”. O problema é que estaremos continuamente forçando nossos irmãos a se submeterem a nós. Nossas palavras preferidas (talvez até inconscientemente) serão: “Honra” (a nossa, é claro), “liderança”, “autoridade” (que temos sobre os outros), etc. Nossas frases serão: “Se submeta a mim, porque senão você estará em rebeldia”, “Eu sou seu líder, e você deve me obedecer”, etc.
Procedendo dessa maneira esquecemos aquele velho princípio: “tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Mas onde fica a honra de filhos espirituais com seus pais? Onde fica a submissão e a sujeição? Não existe liderança?
Sim, existe liderança. Mas essa é conquistada, nunca imposta. Por ser conquistada (através de uma vida de amor, serviço e de doação), a submissão, obediência e honra dos filhos aos pais será fruto de um amor tão intenso que chega a constranger. Quem, sendo cercado com tanto amor de Deus, não é transformado?
Como diz Frank Viola: “Em um ambiente onde os princípios do amor e da doação se desenvolvem, essas questões de submissão e autoridade se desenvolvem sozinhas”.
DOAÇÃO E SERVIÇO
Como pais espirituais nosso foco deve ser: Até que ponto tenho dado a minha vida? Até que ponto tenho servido? Paulo disse: “Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol de vossa alma”. Isso é grandioso, pois emerge de um coração que é enriquecido por Deus.
Viver para se doar, para se gastar em prol do crescimento de outros não é nada fácil. E fazer isso de boa vontade, é um milagre, pois sinaliza um modo de viver despretensioso de alguém que não focaliza em seus próprios interesses. Quanto mais vamos nos envolvendo no serviço, com o passar do tempo, vamos sendo expostos às reais motivações de nossos corações. Chega um momento em que descobrimos que não somos tão servos quanto imaginávamos. O Espírito Santo nos revela alguns aspectos negativos dos quais necessitamos nos arrepender, e vamos sendo continuamente tratados, até um dia, sermos livres de corrupção.
Muito do amor e serviço que declaramos aos outros é meramente uma negociação, uma troca. No fundo, é provável que haja uma expectativa de retorno das pessoas, e isso, para nós mesmos. Diferentemente, o amor de Deus é um dom, não um prêmio, é essencialmente incondicional e unidirecional. O serviço à Deus, tem a sua mais brilhante expressão quando é em oculto, quando não se espera um retorno humano, senão exclusivamente a alegria daquele que tudo vê.
Conviver ao lado de pessoas que se doam dessa maneira é de um aprendizado incomparável. As pessoas que mais me ensinaram eram pessoas que se doavam e serviam dessa maneira. Posso dizer que vejo Jesus em irmãos meus que assim vivem. Quantas vezes não vi isso em meus pais, Saulo e Elizama! Perdi as contas das vezes que os vi amparando e hospedando pessoas que simplesmente não tinham como retornar o favor. Desde menino aprendi muito vendo-os amar, ainda que com imperfeições. Posso citar outro exemplo: meu querido amigo e um de meus mentores, o Carlsberg. Como o admiro pelo seu serviço constante. Não esqueço as primeiras viagens que esse irmão e sua esposa Gilma faziam em nossa direção, com certa freqüência, para nos edificar ou consolar. Vinham de longe, num percurso que atravessava 3 cidades, pegando 2 ônibus e metrô para estar entre nós. O que dizer disso tudo? Doação e serviço.
Lembro de minha querida tia Susan Clarke. A inglesa mais brasileira que se tem notícia. Durante algum tempo ela conviveu conosco, e sua entrega e abnegação foi uma marca deixada em todos que a cercaram. Quantas horas de conversa dedicada! Quanto sobe-e-desce morro para edificar uma nova igreja que tínhamos plantado! E tudo isso pelo simples prazer de ajudar. Marcas que ficaram em minha vida e na vida daqueles irmãos.
Quando uma comunidade cresce com essas características, torna-se irresistível. Nossas palavras serão vazias se nossa vida não for uma dádiva a outros. Definitivamente, não existe melhor maneira de viver. Não existe melhor maneira de influenciar. Como ouvi certa vez: Você decide o que quer fazer, se impressionar ou influenciar as pessoas. Impressionar é fácil. As pessoas ficam boquiabertas com sua eloqüência, talento, com aquilo que se manifesta. Mas você só consegue impressionar as pessoas que estão longe. Todavia, aqueles que influenciaram a muitos assim o fizeram pois, tanto os que estavam longe, e especialmente os que chegaram perto puderam ver seu estilo de vida doador e amoroso e foram fortemente impactados. Que sejamos assim!




